Exposição
[HELENA TRINDADE]
Exposição LIVROS, 2008
Castelinho do Flamengo _ Rio de Janeiro
Curadoria de Alberto Saraiva
INSTALAÇÃO BIBLIOTECA ENCARNADA
Estênceis de letras + luzes e filtros vermelhos
20 m2
Foto de Beto Felício
Atenção: Últimos do estoque!
Data disponível:
Filme de Neville de Almeida baseado na exposição
9:00 min _ versão redux

INSTALAÇÃO BIBLIOTECA NEGRA
Foto do livro de Edgar Allan Poe destituído do conto
A carta roubada + paredes e piso negros + espelho
19 m2
Foto de Beto Felício

INSTALAÇÃO SALA EM BRANCO
Paredes e vidros revestidos de matéria-tinta®
15m2

INSTALAÇÃO CONVERSA NA ESCADARIA
Teclas de máquinas de escrever remontadas em linha de 250 m
Foto de Beto Felício
TEXTO CURATORIAL
HELENA TRINDADE: O VERBO É IMAGEM
Alberto Saraiva
A genealogia da obra de Helena Trindade se origina pontualmente na imagem e na palavra. Na imagem via pintura, pela plasticidade da construção e suas especificidades materiais. Na palavra pela poesia, cuja entrada se dá pela modernidade de Apollinaire (1880-1918), que com seus caligramas insuflou um caminho que se propunha superar a disjunção clássica entre imagem e texto. A proximidade e o diálogo de Apollinaire com os pintores modernos permitiu essa abertura do poema para a imagem através das artes plásticas. Isso fica mais claro à medida que Mallarmé (1842-1898), de outro lado, com seu lance de dados,chega à imagem através da própria estrutura do poema: palavra e espaço da página em branco. Essa genealogia delineada proporciona cruzamentos e interseções históricas, que, no caso de Helena Trindade, vão diretamente ao encontro da produção de artistas/poetas, como Joan Brossa e Nicanor Parra, cuja obra extrapola a dimensão do objeto/palavra ou do chamado poema-objeto. Segundo Adolfo Montejo Navas, trata-se de “una tridimesionalidad nueva de la poesia expandida, una suerte de escultura de pequeño formato casi siempre, una operación de câmara que vincula materiales e imaginários, hecha de condensaciones e desplazamientos...” (Joan Brossa, desde Barcelona al Nuevo Mundo – “Entre la poesía y el objeto”, p.73).
A expectativa que o trabalho da artista cria é a de um prolongamento dessa reflexão que vem da pintura e do texto, e, muito embora nos pareça já um problema basicamente solucionado, ainda acredito haver mais e mais impasses que sempre culminam em situações de novos desdobramentos. Vide trabalhos como os de Luciano Figueiredo, Lenora de Barros, Jenny Holzer e Gary Hill. Entretanto, há na obra de Helena um conceitualismo que se eleva e decorre da convergência de imagem e texto: a ocupação com a idéia de livro, unidade básica da biblioteca, desperta a atenção sobre um universo que vai do livro à arquitetura e da arquitetura ao homem. O livro torna-se um elo da percepção do homem sobre o mundo, mas, principalmente, sobre seus conteúdos de passagem entre realidades.
A construção conceitual do espaço vem sempre da idéia de que seus objetos e livros podem transformar o ambiente em que se instalam naquilo que tem a ver com sua natureza primeva. Daí que a intervenção tende a reanimar os cômodos, retornar a eles, recriando-os: Biblioteca encarnada, Sala em branco, Biblioteca negra, Corredor para a carta evanescente, Quarto do oráculo, Varanda, Quarto do sonho, Quarto do tempo e Conversa na escadaria. É claro que poderíamos pensar em uma conversa que realmente aconteceu na casa, mas essa seria uma forma de memória, o que não é o caso. Melhor seria falar de sintoma, de um conjunto de falas ou relatos da própria casa, de inscrições simbólicas que brotam no corpo da casa: letra encarnada, com esse sentido de carnação/encarnação que a obra da artista promove num ambiente dado. A reconstrução dos cômodos de uma casa revela mecanismos sensíveis comuns a todas as casas habitadas. Esses mecanismos não viriam a priori apenas das relações interpessoais dos habitantes/família, mas também da forma como os cômodos se articulam e do modo pelos quais os espaços se organizam, um dado determinante sobre essas mesmas maneiras de se relacionar. Assim foi que o conceito moderno de residência que tornou os espaços mais ambíguos e transformáveis certamente afetou a disposição das relações humanas. Então, a variação de ocupação de um centro cultural casa, um museu ou um espaço adaptado receberá da artista tratamento diferenciado voltado para sua estrutura arquitetônica e de vida ou, ainda, para tipos de vida e ações de vida através dos quais aquele prédio pode adquirir existência.
Rio de Janeiro, fevereiro de 2008
ALBERTO SARAIVA é Curador e artista visual graduado em Arte Educação e Museologia com especialização em Arte e Filosofia pela PUC-Rio. É curador de Artes Visuais do Oi Futuro Centro de Arte&Tecnologia. Na sua atividade curatorial recente destacam-se: “Intempérie: 2ª Bienal do Fim do Mundo” em parceria com Alfons Hug (2009); Marcos Chaves “É da sua natureza” (2008); “Frederico Dalton - Fotomecanismos” (2007); Projeto TechNô (2007/08); Vicente de Mello “Áspera imagem” (2006); Zalinda Cartaxo “Tecnocroma” FILE 2006; “Mostra VideoLab 2006: Cariocavídeo” em Coimbra e Varsóvia. Possui textos publicados em livros e catálogos, entre os quais: Intempérie: catálogo da 2ª Bienal do Fim do Mundo (2009); colaborador do periódico Papel das Artes; Obranome 2008; Marcos Chaves (Aeroplano, 2008); Relíquias & Ruínas (Contracapa, 2007); Nam June Paik: vídeos 1961 - 2000.
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HELENA TRINDADE: THE VERB IS IMAGE
Alberto Saraiva1
The genealogy of Helena Trindade’s work has its origin punctually in the image and the word. In the image, via painting – through the plasticity of the construction and its material specificities. In the word, via poetry – its entrance being the modernity of Apollinaire (1880-1918), whose calligrams insufflated a way to get over the classical disjunction between image and text. Apollinaire’s proximity and dialogue with modern painters made it possible for the poem to become open to the image through the plastic arts. This becomes clearer as Mallarmé (1842-1898), on the other hand, with his throw of the dice, arrives at the image through the structure of the poem itself: the word and the space on the blank page. This outlined genealogy leads to historical crossings and intersections which, in Helena Trindade’s case, go directly along with the production of artists/poets such as Joan Brossa and Nicanor Parra, whose work extrapolates the dimension of the object/word or the so-called poem-object. According to Adolfo Montejo Navas, it’s “a new tridimensionality of the expanded poetry, a sort of sculpture that’s almost always small-shaped, a chamber operation which links the material and the imaginary, made of condensations and displacements…” (Joan Brossa, desde Barcelona al Nuevo Mundo – “Entre la poesía y el objeto”, p.73).
The artist’s work creates an expectation of prolonging this reflection originated in the painting and the text, and, although this might seem to us like a problem that has already been solved, I believe there are always additional stalemates which invariably culminate in situations of new unfoldments. See works by Luciano Figueiredo, Lenora de Barros, Jenny Holzer, and Gary Hill. However, in Helena’s work, there’s a conceptualism that stands out, that stems out of the convergence between image and text: the focus on the idea of the book as the basic unit in a library directs the attention to a universe that goes from the book to architecture and from architecture to man. The book becomes a link in man’s perception of the world, but, more importantly, of the contents found in the passage between realities.
The conceptual construction of space always comes from the idea that its objects and books have the ability to transform the environment where they are installed into that which relates to its primeval nature. Therefore the intervention tends to reanimate the rooms, going back to them, recreating them: Biblioteca encarnada(Incarnate library), Sala em branco(Blank room), Biblioteca negra(Black library), Corredor para a carta evanescente(Corridor to the evanescent letter), Quarto do oráculo (Room of the oracle), Varanda(Balcony), Quarto do sonho (Dream room), Quarto do tempo (Time room), and Conversa na escadaria(Conversation in the staircase). Of course, we could think of a conversation that really took place in the house, but this would be a type of memory, which is not the case. It would be better to talk about symptom, about a bunch of conversations or accounts of the house itself, about symbolic inscriptions that blossom in the body of the house: the incarnate letter, in this sense of carnation/incarnation that the artist’s work promotes in a given environment. The reconstruction of the rooms in a house reveals sensitive mechanisms that are common to all inhabited houses. These mechanisms would not only come before the interpersonal relationships of the inhabitants/family, but also before the way rooms are articulated and the way spaces are organized, a determinant factor in those same relationships. This is how the same modern concept of residence that made the spaces more ambiguous and transformable, certainly also affected the disposition of human relationships. Therefore, the different usage in a cultural center, a house, a museum, or an adapted space results in differentiated treatments by the artist, geared towards its architectural and life structure or, yet, towards lifestyles and actions through which that building may attain existence.
Rio de Janeiro, February 2008
[1] Curator and plastic artist graduated in Art Education and Museology with specialization in Art and Philosophy from PUC-Rio. He is the visual arts curator at Oi Future Center of Arts & Technology. Some of his recent curatorships are: “Intempérie: 2ª Bienal do Fim do Mundo”, in partnership with Alfons Hug (2009); Marcos Chaves “É da sua natureza” (2008); “Frederico Dalton – Fotomecanismos” (2007); TechNô Project (2007/08); Vicente de Mello’s “Áspera imagem” (2006); Zalinda Cartaxo’s “Tecnocroma” FILE 2006; “Mostra VideoLab 2006: Cariocavídeo”, in Coimbra and Warsaw. Some of his published texts are: Intempérie: catálogo da 2ª Bienal do Fim do Mundo (2009); collaborator in the periodical Papel das Artes; Obranome 2008; Marcos Chaves (Aeroplano, 2008); Relíquias & Ruínas (Contracapa, 2007); Nam June Paik: vídeos 1961 - 2000.