COMO SERÁ O AMANHÃ?

abiótico-biótico

 

Muitos devem desconhecer que em suas entranhas fluem tubulações orgânicas que formam uma extraordinária rede por onde navegam secreções exócrinas, expelidas através de dutos. São secreções salivares, lacrimais, sudoríparas, mucosas. Através delas o vírus se prolifera.

Tentemos compreender o momento em que nos encontramos, onde o homem vem sendo destituído do lúdico que permeia a sua existência. Diante dessa constatação, crio a figura do biótico-abiótico. Esse ser, meio máquina, meio gente, prolifera no seio flácido da contemporaneidade. O biótico-abiótico possui um coração que pulsa e caspas sintéticas pendem, tremulando-confetes-carnavalização na sanha da hora. É fato que estas estruturas bipartidas se diferenciam de geladeiras ou aspiradores. Claro, afinal,  há sobre os ombros cabeças que decidem entre um tênis da Nike ou da Adidas, pagos em 24 prestações. 

Em seu cotidiano, no transcurso de sua existência, o biótico-abiótico se submete ao chefe bipolar, cujo o tom se encontra na anormalidade de sirenes histéricas. Na hora do almoço, após bater o ponto digital, deglute a pasta peçonhenta e sem vida de algum FASTFOOD assassino. Ao voltar do trabalho, no vagão apinhado do trem,  participa, cotidianamente, da performance viva intitulada “Deslocamento contido da massa; olhares cabisbaixos e sussurros enrustidos”. Chegando em casa, onde mora com a mãe cega de 90 anos, o biótico-abiótico abre uma cerveja e se entorpece em frente a TV, absorvendo como um manual de boa conduta as mentiras disseminadas pelos noticiários da  mídia  estabelecida, associada, em  grande parte, aos interesses de poucos.  O fato é que este homem, cada vez mais  máquina; humilhado e explorado, continua servindo aqueles que o tiranizam. Sobre esse incompreensível quadro, imutável há séculos, o filósofo francês Etienne de la Boétie, em sua principal obra, “O Discurso da Servidão Voluntária”, indaga: “Coisa extraordinária, por certo; e porém tão comum que se deve mais lastimar-se do que espantar-se, ao ver um milhão de homens servir  miseravelmente, com o pescoço sob o jugo, não obrigados por uma força maior, mas de algum modo (ao que parece) encantados e enfeitiçados apenas pelo nome de um, de quem não devem temer o poderio pois ele é só, nem amar as qualidades pois é desumano e feroz para com eles”. Interessante é o fato desta obra, publicada em 1563, ser tão atual.  O que muda de maneira radical é a crescente inutilidade da força de trabalho humana, que passa a ser descartável em larga escala. A maneira com a qual as autoridades mundiais vem lidando com o  COVID 19 é, em certa medida, um sinal do que está por vir.  A pandemia surge de maneira devastadora e, mesmo com o vírus ainda a solta, os países flexibilizam a quarentena sob o argumento genocida de preservação das economias. O mais impressionante, no entanto, foi o comportamento suicida em alguns países como o Brasil, motivado por lideranças irresponsáveis, que ao menosprezarem o contágio, estimularam multidões a invadirem shopping centers, bem como, jovens se aglomerarem em bares e restaurantes sem o uso de máscaras. Uma banalização da vida sem precedentes.

As obras que se encontram na presente exposição apontam para a necessidade de um mundo em que o homem seja senhor de si próprio e, não, escravo do capital; do dinheiro. Um mundo minimalista com valores associados a essência humana em conexão com o divino. A curadoria se pautou por esses princípios, buscando explorar ao máximo as extraordinárias possibilidades trazidas pelas artes visuais contemporâneas e as inúmeras linguagens que compõem o campo. Um amanhã onde haja justiça e equanimidade, onde todos possuam acesso ao que há de mais sofisticado produzido pela inteligência humana, se conecta, necessariamente, com as práticas espirituais, conjuminadas ao impulso transversalizador da arte em seu campo expandido.

Para alcançar-se resultados concretos, faz-se necessário forjar estratégias voltadas a democratização do acesso; um trabalho didático que aprofunde a compreensão desse universo complexo onde se situa as artes visuais contemporâneas em conversas com outras fronteiras artisticas. O mundo virtual se mostra propício como suporte para o desenvolvimento desse, que será um árduo e longo trabalho. Mas não adianta usar o meio para reproduzir as mesmas relações viciadas do mundo real. 

A ART VEINE, com o projeto “Como será o amanhã?”, se insere no fluxo propositivo de pensar outros modelos que venham a possibilitar o fortalecimento do campo; um outro paradigma que seja inclusivo e, não, excludente. Trata-se de uma  jornada de mãos dadas com a guinada para a construção de um outro planeta, ditado pelas utopias a serem resgatadas.

Sobre o espaço expositivo, buscou-se aproveitar ao máximo as possibilidades da plataforma, inserindo não só imagens, mas, também textos explicativos que possibilitem uma compreensão expandida das obras. Na exposição, a presença mais significativa é do vídeo, seguido pela pintura e a fotografia. Mas há também, a escultura, arte sonora, livro de artista, colagem e poesia visual.

O objetivo dessa exposição, além  de promover a difusão das artes visuais contemporâneas e intercâmbio entre artistas de diversos países, é também levá-la para um espaço físico. Nesse sentido, foi realizada uma simulação privilegiando-se a exibição em vídeo e fotografia das obras que foram criadas para exibição no espaço, como esculturas. Essa foi uma estratégia pensada apenas para a apresentação do projeto a possíveis interessados, entre centros culturais e outros eventos. 


Nelson Ricardo Martins

Curador



WHAT ABOUT TOMORROW?

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Several people must be unaware that their internal structures flow organic pipes that form an extraordinary network through which exocrine secretions travel, expelled through ducts. They are salivary, lacrimal, sweat, mucous secretions. Through them the virus proliferates.

Let us try to understand the historical moment in which we find ourselves, where Man has been deprived of the playfulness that permeates his existence. Given this observation, I create the figure of biotic-abiotic. This being, half machine, half people, in fact exists and proliferates in the flabby bosom of contemporaneity. The biotic-abiotic has a heart that beats and, at times, synthetic dandrops hang, fluttering-confetti-carnival in the hour. It is a fact that these two-part structures differ from refrigerators or vacuum cleaners. Of course, after all, there are heads on their shoulders who decide between a Nike or Adidas sneaker, paid in 24 installments.

In his daily life, in the course of his existence, the biotic-abiotic submits to the hysterical chief, whose tone is found in the abnormality of hysterical sirens. In work, At lunch time, swallow the poisonous and lifeless paste of some murderous FASTFOOD. The end of the day on returning home, in the crowded train car, presents, daily, the live performance entitled “Contained displacement of the mass; downcast looks and absent whispers ”.  Arriving home, where he lives with his 90-year-old blind mother, the biotic-abiotic opens a beer and dulls himself in front of the TV, absorbing the lies disseminated by the news of the established, associated media, largely as a manual of good conduct. , to the interests of the few. The fact is that this man, more and more machine; humiliated and exploited, he continues to serve those who tyrannize him. About this incomprehensible picture, unchanged for centuries, the French philosopher Etienne de la Boétie, in his main work, “The Discourse on Voluntary Servitude”, asks: “Extraordinary thing, certainly; and yet so common that one should be more sorry than be astonished to see a million men serve miserably, with their necks under the yoke, not obliged by a greater force, but somehow (it seems) enchanted and bewitched only by the name of one, from whom they must not fear power because it is alone, nor love its qualities because it is inhuman and fierce towards them ” Interesting is the fact that this work, published in 1563, is so current. What changes radically is the increasing uselessness of the human workforce, which is now disposable on a large scale. The way in which world authorities have been dealing with COVID 19 is, to some extent, a sign of things to come. The pandemic arises in a devastating manner and, even with the virus still out there, countries are easing quarantine under the genocidal argument of preserving economies. The most impressive thing, however, was the suicidal behavior in some countries like Brazil, motivated by irresponsible leaders, who at least despised the contagion, stimulated crowds to invade shopping centers, as well as, young people to congregate in bars and restaurants without using masks. An unprecedented trivialization of life. 

The works found in the present exhibition point to the need for a world in which man is master of himself and not a slave to capital; of the money. A minimalist world with values ​​associated with human essence in connection with the divine. The curatorship was guided by these principles, seeking to exploit to the maximum the extraordinary possibilities brought by contemporary visual arts and the countless languages ​​that make up the field. A tomorrow where there is justice and equanimity, where everyone has access to the most sophisticated products produced by human intelligence, is necessarily connected with spiritual practices, combined with the transversal impulse of art in its expanded field.

To achieve concrete results, we need to forge strategies aimed at democratizing access; a didactic work that deepens the understanding of this complex universe where contemporary visual arts are located in conversations with other artistic frontiers. The virtual world is propitious to support the development of this, which will be a long and hard work. But it is useless to use the medium to reproduce the same flawed relationships in the real world.

ART VEINE, with the project “What About Tomorrow?”, Is part of the purposeful flow of thinking about other models that will enable the strengthening of the field; another paradigm that is inclusive and not exclusive. It is a hand in hand journey with the turn to build another planet, dictated by the utopias to be rescued.

About the exhibition space, we sought to make the most of the platform's possibilities, inserting not only images, but also explanatory texts that enable an expanded understanding of the works. In the exhibition, the most significant presence is the video, followed by painting and photography. But there is also sculpture, sound art, artist's book, collage and visual poetry.

The purpose of this exhibition, in addition to promoting the diffusion of contemporary visual arts and exchanges between artists from different countries, is also to take it to a physical space. In this sense, a simulation was carried out, privileging the video and photography exhibition of works that were created for exhibition in space, such as sculptures. This was a strategy designed only to present the project to potential stakeholders, between cultural centers and other events. 

 

Nelson Ricardo Martins

Curator