Do  latim archívum...

 

Embora, no Brasil, a política de arquivos públicos e privados seja gerenciada pelo Conselho Nacional de Arquivos, sabemos o quão precários eles são, com poucos centros especializados para consulta em diferentes áreas de conhecimento, como nas artes visuais.

Para Helena Trindade, a abordagem do espaço onde vai expor é fundamental na concepção da própria exposição, quer pela história do lugar, de suas vivências e simbolismos. Assim são suas instalações no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (CMAHO), com um conjunto de cópias do arquivo desta instituição.

Podemos pensar em uma reflexão sobre os caminhos que este Centro tem percorrido desde a sua criação, ao sabor das diferentes políticas públicas do município do Rio de Janeiro. De uma atuação exemplar no seu início, sob a direção de Vanda Klabin, e posteriormente com Paulo Sergio Duarte, exibindo importantes exposições de arte brasileira e internacional, ao posterior decaimento progressivo e à sua recente revitalização na direção de Izabela Pucu. Inicia-se agora um novo período, momento propício para uma reavaliação, a que a exposição Domínio Lacunar, de Helena Trindade, não deixa de fazer alusões.

Embora o seu trabalho se caracterize, como diz a artista, por insistir “em cingir o vazio da letra”[1], nesta exposição é o arquivo que está em questão. Arquivo, ainda segundo a artista, que é sempre lacunar, que nunca está completo, podendo ter diversas leituras; que é sempre um recorte, remetendo à memória, à escrita, a traços conscientes ou não.[2]

Ao entrarmos na primeira sala as referências são a Hélio Oiticica. Primeiro, uma grande coluna, construída a partir de documentos, eles próprios transformados em pequenas caixas, em que se misturam dados relativos a eventos sobre o artista ocorridos no Centro, tais como as exposições Hélio Oiticica e a Cena Americana, 1998; Hélio Oiticica: Além do espaço, 2001;  Cosmococa – Programa in progress quase cinema, 2005, entre outras.

Material fotográfico; documentos da produção; clippings; correspondência; convites, enfim, material geral das exposições compõe as fotocópias cedidas pelo CMAHO e que Helena Trindade transforma em caixinhas. Remissões ao próprio trabalho de Hélio Oiticica também se fazem presentes, como as caixas que remetem ao Magic Square, 1977, e as amarelas, azuis e vermelhas que aludem ao apreço do artista por Mondrian.

No outro lado da mesma sala, o trabalho de Helena Trindade, Bólide AHO: uma pequena caixa construída com a imagem de uma maquete de um Penetrável é coberta pela mesma tela perfurada branca utilizada nesse estudo de Hélio, realizando, assim, uma releitura, como o título indica.

O grande portal que separa as duas salas, no andar térreo, é coberto por pequenas caixinhas pretas, que o emolduram, como se esperassem os arquivos futuros.

Na segunda sala, dois trabalhos são apresentados: na parede frontal e na lateral esquerda, uma grande faixa de cerca de um metro de altura de pequenas caixas exibe os arquivos mais recentes, a partir de 2014, período da gestão de Izabela Pucu.  Elas são construídas, igualmente, a partir de clippings de imprensa, esquemas de montagem, listas de materiais de produção, convites de exposições, seminários, debates, defesas de tese, agenda de visitas de escolas e outros materiais. O trabalho demanda uma espécie de “investigação” do público para ver os documentos, ainda que de forma parcial e indireta, importando a percepção de um conjunto segmentado.

Na parede entre as janelas, uma grande fileira vertical de catálogos produzidos pelo Centro, como os de José Resende, Richard Serra, Osmar Dilllon, Antonio Manuel, Eduardo Sued, Iole de Freitas, Amilcar de Castro, Luciano Fabro, Daniel Buren, entre outros, desce do teto, esparramando-se um pouco pelo chão. Os catálogos são apresentados de forma a se “derramarem” uns sobre os outros, a artista privilegiando as páginas onde figuram quadrados, cubos e caixas como o Corpobra, (Ação/Proposição), 1970,  de Antonio Manuel.

É o sentido de construção, tendo letras, imagens, catálogos ou caixas como “tijolos”, de avaliação do espaço em seus vários sentidos, simbólicos, éticos e políticos inclusive, que relaciona as diversas instalações de Helena Trindade a estruturas lacunares. Como arquivos que se opõem à ilusão de completude ou de objetividade, elas demandam uma infinidade de leituras, condição necessária à renovação.

 

Glória Ferreira

Junho 2017

[1] Helena Trindade. In:  Entrevista de Helena Trindade a Glória Ferreira. Helena Trindade Livros. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009. Reed. In: FERREIRA, Glória. Entrefalas. Porto Alegre: Editora Zouk, 2011. p. 165 a 181.

[2] Helena Trintade conversa com a autora


MÍDIA


GLOBO NEWS LITERATURA_ Entrevista

 

 


DAS ARTES

































REVISTA SELECT _ Alberto Saraiva